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 Psicóloga Luciana Nunes
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 Artigos:

· O que é ter saúde?
· Confissão autobiográfica : “... você não consegue fugir do seu corpo. É um fato. E, quando você o aceita, é extremamente reconfortante”.


























O que é ter saúde?

Quando a Organização Mundial da Saúde foi criada, pouco após o fim da Segunda Guerra Mundial, havia uma preocupação em traçar uma definição positiva de saúde, que incluiria fatores como alimentação, atividade física, acesso ao sistema de saúde etc. O "bem-estar social" da definição veio de uma preocupação com a devastação causada pela guerra, assim como de um otimismo em relação à paz mundial — a Guerra Fria ainda não tinha começado. A OMS foi ainda a primeira organização internacional de saúde a considerar-se responsável pela saúde mental, e não apenas pela saúde do corpo.

A definição adotada pela OMS tem sido alvo de inúmeras críticas desde então. Definir a saúde como um estado de completo bem-estar faz com que a saúde seja algo ideal, inatingível, e assim a definição não pode ser usada como meta pelos serviços de saúde. Alguns afirmam ainda que a definição teria possibilitado uma medicalização da existência humana, assim como abusos por parte do Estado a título de promoção de saúde.

Por outro lado, a definição utópica de saúde é útil como um horizonte para os serviços de saúde por estimular a priorização das ações. A definição pouco restritiva dá liberdade necessária para ações em todos os níveis da organização social.

Christopher Boorse definiu em 1977 a saúde como a simples ausência de doença; pretendia apresentar uma definição "naturalista". Em 1981, Leon Kass questionou que o bem-estar mental fosse parte do campo da saúde; sua definição de saúde foi:

"o bem-funcionar de um organismo como um todo", ou ainda "uma atividade do organismo vivo de acordo com suas excelências específicas." Lennart Nordenfelt definiu em 2001 a saúde como um estado físico e mental em que é possível alcançar todas as metas vitais, dadas as circunstâncias.

As definições acima têm seus méritos, mas provavelmente a segunda definição mais citada também é da OMS, mais especificamente do Escritório Regional Europeu: A medida em que um indivíduo ou grupo é capaz, por um lado, de realizar aspirações e satisfazer necessidades e, por outro, de lidar com o meio ambiente.

A saúde é, portanto, vista como um recurso para a vida diária, não o objetivo dela; abranger os recursos sociais e pessoais, bem como as capacidades físicas, é um conceito positivo.



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Confissão autobiográfica : “... você não consegue fugir do seu corpo. É um fato. E, quando você o aceita, é extremamente reconfortante”.

Julio Daio Borges

Foto:


Eu sempre fui magro. Durante as duas primeiras décadas da minha vida, eu nunca pensei que fosse engordar. Fui também daqueles que nunca tomou conhecimento de regimes, e igualmente não se privava de nada. Sofri com minhas espinhas, mas sempre me recusei a acreditar que houvesse alguma relação entre, por exemplo, alimentação e pele oleosa. Até os meus 20 anos.

Dos 19 para os 20 ou dos 20 para os 21, não me lembro exatamente agora, meu pai me achou com as mãos inchadas e eu fui consultar um médico. Não havia nada, eu só estava engordando, e ele me receitou um regime. Aquele dos pontos. Levei a sério e, como acontece nessas situações, logo estava decorando a tabelinha e, com um pouco de exercício, emagreci 5 quilos.

Esqueci o assunto por longos 10 anos. Até agora. E você deve estar estranhando essa confissão autobiográfica, sobre os meus pecados à mesa e a minha natural gulodice, mas acho que aprendi algumas coisas, que me ajudaram, e que podem ser compartilhadas entre mais pessoas.

Em primeiro lugar, percebi quantos anos passei menosprezando meu próprio corpo. Ocorre às pessoas inteligentes (eu espero que você se identifique com esta parte): como o atual culto à aparência e à boa forma não combina com uma vida cheia de ambições intelectuais, fingimos que ignoramos que somos feitos de matéria, como todo mundo. Direcionamos todos os esforços ao desenvolvimento da mente e o corpo fica relegado a um último plano. É fatal; e é normalíssimo entre as pessoas que eu encontro.

Mas a juventude não é um bem durável. De repente, aquele incessante bem-estar passa e começamos a achar tudo uma droga, como convém aos adultos. Na mocidade (expressão vetusta), as coisas eram melhores. As frutas não têm mais o mesmo sabor; os dias não são mais tão radiantes – perdemos o interesse pelos outros e pelo mundo. Nada mais é uma novidade, como antes foi.

O que acontece? São os 30 anos? Não; eu descobri que é o corpo.

(Agora vou repetir alguns lugares-comuns dos livros de auto-ajuda e das revistas especializadas, e você, por favor, não repare.)

Tenho cá pra mim que só nos lembramos da nossa existência corporal, física, quando o corpo falha – e tudo o mais desaba. Sem o baque, que pode ser uma doença, um acidente, um descuido, seguimos adiante como se a máquina nunca fosse parar, e como se a nossa consciência pudesse se preservar por toda a eternidade.

Não é verdade. Como disse um autor de best-sellers, o corpo nos carrega pela via afora – e maltratá-lo é maltratar a si próprio. Eis uma obviedade que pouca gente engole. Quando você se excede, quando você passa dos limites, é você mesmo quem paga, a vista ou a prazo. Porque a saúde é um “jogo de soma zero”, onde: se você gasta, um dia vai ter de pagar.

Mas toda essa pregação de “personal trainer” (ou de ex-fumante que quer convencer os outros a parar de fumar) não serviria para nada se eu não tivesse vivenciado os resultados na prática. Então me convenci de que tão burra quando a tendência a aderir à moda e se enfurnar numa academia, e numa vida vazia à la Malhação, é a insistência teimosa em resistir a hábitos saudáveis e a um dia-a-dia mais regrado, em nome da “inteligência” ou de uma suposta imunidade às vicissitudes corporais que afligem a todos. Ou seja: por mais que haja casos e casos de gente que usou e abusou, e sobreviveu depois para contar, é burrice se colocar à margem e – por teimosia – deixar de se cuidar.

(Eu posso naturalmente contar da minha transformação, mas não posso obviamente lhe impor o meu “life style” em prol do seu bem-estar. Posso, ainda assim, tentar convencer você por palavras e incitar seu desejo no sentido de “querer mudar”. Já é um passo e é isso que faço agora.)

* * *

Eu abandonei os exercícios aos 17 anos, por conta do vestibular. Entrei na faculdade, mas nunca voltei de verdade a me exercitar. Eram retornos esporádicos, e de curta duração – por causa de um amigo que ia nadar perto da minha casa; por causa da obrigatoriedade semestral de se fazer esporte (na universidade); por inspiração de um dia de lazer no campo ou na praia.

Então fui para um spa, e voltei modificado.

Minhas conclusões (para você que está cansado do blablablá sentimental). Primeiro, sobre os horários. Se você pretende um dia emagrecer ou quem sabe pensar mais na sua saúde, seu dever número um é estruturar sua vida de forma a manter firmes as “horas básicas” de acordar, almoçar, jantar e dormir. Acordando cada dia num horário e dormindo cada dia num outro, por exemplo, não há como se manter na trilha de um objetivo, seja ele físico ou mental.

Se você trabalha muito e não consegue descansar nem quando está dormindo, há algumas coisas erradas que você pode mudar. Primeiro, arranje uma atividade física, que seja passear na praça por uma hora (como eu comecei a passear), e, de preferência, não leve nada com que você possa intelectualmente se ocupar. Depois, antes de dormir, não encha a barriga, não se banqueteie sem necessidade, e vai logo perceber que as voltas que você dava, em torno da cama, incrementadas com pesadelos sobre o trabalho, vão diminuir até cessar.

Evite beber em excesso durante as refeições. Seu estômago vai ficar muito menos inchado e você vai se sentir menos barrigudo ao fim e ao cabo (pois nem tudo é gordura; muitas vezes, é apenas mistura de líquidos com sólidos, mal mastigados e engolidos na pressa de terminar.) Reserve um tempo para almoçar, jantar e tomar café-da-manhã. Não folheie o jornal ou execute tarefas para as quais não houve tempo em outras horas; converse pouco e concentre-se na refeição (uma mastigação efetiva e um saborear lento e prazeroso farão muito pelo seu estômago, que se saciará com menos que o normal).

Seja mais seletivo quanto ao que for ingerir. Refrigerantes, por exemplo, não vão matar a sua sede e só vão te estufar. Doces em excesso podem acabar com o seu paladar para frutas maduras (você não vai achar graça em algo sem muito açúcar); e salgados em excesso vão acabar com o seu potencial – eu disse “potencial” – para legumes e verduras, que têm um tempero peculiar mesmo sem sal, azeite ou vinagre. Fuja das frituras e passe um dia sem gordura animal, apenas para testar.

Evite a poluição. Atmosférica, visual, sonora, intelectual. Ligue-se à natureza de vez em quando, nem que seja para observar o pôr do sol da janela do escritório e o frescor de uma manhã recém-amanhecida, se – por “descuido” – você se levantar mais cedo que o habitual. Diminua as atividades noturnas ou, ao menos, antes de dormir. Diminua também a luz. Os estímulos audiovisuais da televisão... nem pensar. Siga mais o seu ritmo e menos o ritmo dos outros. (Descubra o seu ritmo interior.)

E, se tudo isso falhar, tente apenas uma única coisa. No outro dia, outra – e vá acrescentando à sua montanha de bons hábitos ao longo da semana. Seu corpo vai agradecer. E todo o resto à sua volta vai melhorar.

Para mim, pelo menos, funcionou.

* * *

Emagreci 5 quilos de novo. Não aqueles, lá dos 20 anos, pois ainda faltam outros tantos. Mas consegui isso – seguindo a “receita” acima – em menos de um mês; em algumas semanas.

Acordo às 6 da manhã, como no tempo da escola. Antes (menos de um mês atrás), era doloroso levantar às 7 horas. Meu corpo reclamava e, depois de deitar tarde (pra lá da meia-noite), tendo comido à vontade, a sensação era de ressaca – mesmo que eu não tivesse ido a festa nenhuma. Hoje durmo às 10; no máximo, às 11. (Depois disso só durante o fim de semana.)

Eu já andava na praça antes, mas tinha uma barriga persistente e, depois de uma coca-cola, algumas dores no estômago. Não estava com doença ou com verme, como cheguei a pensar (graças a um diagnóstico assim em 2000), apenas comia muito rápido, engolindo tudo afoito e bebendo líquidos demais.

O que eu como? Mantive, até certo ponto, os hábitos do spa. Uma tigela de iogurte (desnatado) com cereais e mel pela manhã. Um litro de água mais um lanche (de frutas) antes do almoço. Fruta, salada e um prato quente pequeno (nessa ordem) ao meio-dia. Outro litro de água e outro lanche (de frutas) à tarde. Fruta, salada e um prato quente (menor do que do almoço) no jantar. Não preciso de mais nada. (E você também não precisa, pode apostar.)

Sinto fome, sinto desejo, sinto tonturas? Sinto, claro, com exceção das últimas. Mas nada que não seja controlável. E um deslize não chega a ser fatal; apenas impõe uma correção, na refeição posterior.

* * *

Enfim, não se operou em mim nenhum milagre. Eu apenas me sinto melhor. Realizo melhor as coisas. Convivo melhor, penso melhor, escrevo melhor.

Você pode achar tudo isso uma bobagem – como eu também achava –, mas você não consegue fugir do seu corpo. É um fato. E, quando você o aceita, é extremamente reconfortante.

Entre em contato com Julio Borges aqui.



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