A psicologia não entra na dependência de games para declarar guerra aos jogos eletrônicos. Quem me conhece, sabe a minha posicao! Ela entra para devolver liberdade à pessoa. Essa diferença é fundamental.
O objetivo do cuidado psicológico não é transformar o game em inimigo, mas compreender por que ele se tornou tão necessário, tão central ou tão difícil de interromper.
Quando alguém chega ao consultório por uso problemático de games, raramente o jogo é o único tema. Por trás dele podem aparecer ansiedade, baixa autoestima, solidão, conflitos familiares, dificuldades escolares, frustrações profissionais, timidez, sensação de inadequação, impulsividade, tristeza ou ausência de projeto de vida. O jogo pode ser o comportamento visível de uma dor menos visível.
Por isso, o primeiro passo é avaliação. Antes de falar em dependência, é preciso entender a rotina, o tempo de uso, o tipo de jogo, o contexto familiar, o sono, a alimentação, os vínculos, o desempenho escolar ou profissional, a presença de sofrimento emocional e a capacidade de reduzir ou interromper o comportamento. A avaliação também deve diferenciar games de apostas, redes sociais, uso geral de internet e outros comportamentos digitais.
A CID-11 aponta que o Gaming Disorder envolve perda de controle sobre o jogar, prioridade crescente dos jogos e continuidade apesar de consequências negativas, com prejuízo significativo em áreas importantes da vida. Esse critério ajuda o profissional a evitar dois erros: minimizar casos graves ou patologizar jogadores saudáveis.
Depois da avaliação, a psicoterapia trabalha com a função do jogo.
Em termos simples:
Para que esse jogo está servindo na vida da pessoa?
Ele oferece prazer?
Pertencimento?
Reconhecimento?
Fuga?
Alívio?
Controle?
Identidade?
Previsibilidade?
Cada resposta aponta um caminho de intervenção.
Se o jogo funciona como fuga da ansiedade, será preciso desenvolver formas mais saudáveis de lidar com ansiedade. Se funciona como único espaço de competência, será importante reconstruir experiências de capacidade fora da tela. Se funciona como pertencimento, será necessário fortalecer vínculos seguros. Se funciona como anestesia emocional, o trabalho será ajudar a pessoa a tolerar e nomear emoções sem precisar desaparecer dentro do jogo.
A psicologia também ajuda na reorganização da rotina. Isso não significa apenas montar uma tabela de horários. Rotina sem sentido não se sustenta. É preciso construir uma vida que volte a ter atrativos fora do jogo. Sono, estudo, trabalho, lazer presencial, atividade física, convivência familiar e projetos pessoais precisam ser retomados de modo gradual e possível.
Em muitos casos, reduzir de forma brusca pode gerar resistência. O cuidado clínico precisa considerar ritmo, motivação e contexto. Mudanças sustentáveis costumam funcionar melhor quando a pessoa participa da construção das metas. O tratamento não deve ser uma imposição externa, mas um processo de recuperação de autonomia.
Particularmente, trabalho com base no cuidado em territórios digitais, integra TCC, ACT, psicoeducação e apoio social como fundamentos para programas estruturados de atenção psicossocial. Como Mestre em Ciências nos EUA tendo a atuar de forma mais diretiva, mas sempre entendendo a psicodinâmica da pessoa – e para isso a psicanálise cria um campo muito criativo na dinâmica psicológica clínica.
A família também pode precisar de orientação.
Muitas vezes, os familiares chegam exaustos, irritados e com medo. Querem soluções rápidas, mas já estão presos em um ciclo de brigas, ameaças, cortes e reconciliações. A orientação psicológica ajuda a família a estabelecer limites sem humilhação, conversar sem transformar tudo em acusação e diferenciar firmeza de controle excessivo.
Com adolescentes, o cuidado exige ainda mais delicadeza. A cultura gamer pode ser parte importante da identidade do jovem. Atacar diretamente os games pode soar como ataque à pessoa, ao grupo de amigos e ao modo como ela se reconhece no mundo. Por isso, o diálogo precisa validar o que o game representa, sem deixar de apontar os prejuízos quando eles existem.
Com adultos, o desafio pode ser outro: vergonha. Muitos adultos sofrem em silêncio porque acreditam que “já deveriam ter superado isso”. Alguns mantêm trabalho e responsabilidades, mas usam os games como refúgio noturno, sacrificando sono, relações e projetos. A psicoterapia oferece um espaço sem julgamento para compreender esse padrão e reconstruir escolhas.
O tratamento também pode envolver metas práticas: reduzir sessões prolongadas, criar pausas, reorganizar horários de sono, retomar atividades abandonadas, conversar com familiares, identificar gatilhos emocionais, limitar situações de maior risco e construir fontes alternativas de recompensa. Mas essas metas só fazem sentido quando conectadas a algo maior: que vida a pessoa quer recuperar?
Essa pergunta muda o tratamento. Não se trata apenas de jogar menos. Trata-se de viver mais.
Em alguns casos, pode ser necessário encaminhamento ou trabalho conjunto com psiquiatra, especialmente quando há depressão, ansiedade intensa, TDAH, transtornos do sono ou outros quadros associados. Isso não significa que o game causou tudo. Significa que o sofrimento humano é complexo e precisa ser cuidado de forma responsável.
A psicologia também ajuda a separar culpa de responsabilidade.
Culpa paralisa. Responsabilidade movimenta. A pessoa não precisa se odiar por ter perdido o controle, mas precisa reconhecer os prejuízos e participar ativamente da mudança.
No fim, a pergunta clínica não é “como eliminar os games?”. A pergunta é “como fazer com que os games deixem de comandar a vida?”. Quando essa mudança acontece, o jogo pode voltar a ser lazer, cultura, competição ou prazer — e não prisão.
Para compreender melhor os sinais e o conceito geral, leia o artigo principal deste cluster: dependência de games.
Luciana Nunes


